episódio # 63 - a crise dos fóruns (em: filosofias baratas)

isso foi em 01.Nov.08 e 4 comentaram

Atualmente todos conhecem o Orkut. Mas será que todo mundo por ai conhece os fóruns?
O modelo de discussão dos fóruns vive de certa forma em crise atualmente. Podemos falar isso se compararmos o poder que eles detinham na troca de informações entre pessoas há 10 anos atrás com o poder que eles dividem hoje entre múltiplos outros sites de relacionamento.
Mesmo assim os fóruns são uma força que não esta perto da extinção, muito pelo contrário. Na verdade seu desgaste foi natural, na medida em que formas talvez mais dinâmicas de interação foram surgindo.
No início dos anos 90 um modelo muito tradicional era o dos boletins, talvez o propulsor dos fóruns. Tratava-se basicamente de um servidor que podia abrigar diversas pessoas online em torno de uma lista contínua de textos escritos (posts). Não haviam diferentes categorias ou tópicos. Era algo entre um chat e o fórum que conhecemos hoje na verdade. As pessoas entravam numa espécie de sala onde todos os textos ficavam registrados e davam continuidade a ele complementando com seus pensamentos sobre o assunto. Quando o boletim estava cheio (limite de sua memória), um novo podia ser criado.
Parece extremamente rudimentar e inóspito, mas é esse tipo de interação mais primitiva que fundamentou os tipos de relacionamento que vemos hoje nos fóruns. A partir dos boletins as pessoas liam diferentes opiniões ao redor do mundo, simpatizavam ou desgostavam de certos escritores, e criavam assim um vínculo com o boletim. Os fóruns de atualmente foram possíveis graças à padronização e avanço no desenvolvimento das ferramentas de linguagem digital, mas essa essência básica, a do relacionamento, permanece em muito intacta.
Hoje podemos organizar nossos fóruns de maneira muito mais flexível, usando diferentes linguagens e servidores, o que confere uma característica muito mais específica para cada um. Nesse momento então, na medida em que as pessoas vão deixando os fóruns mais com suas caras, que eles vão ganhando o tom de especificidade comum de hoje. Então passamos a ter o fórum só de música, o fórum só de literarura, outro só de cinema ou então um onde os nerds se encontram para serem felizes fora dos olhares julgadores da sociedade. As possibilidades são infinitas.
Antes disso o que se via muito era os fóruns pluralizados. Acredito que muitas pessoas lembram daqueles fóruns onde queria se discutir de tudo um pouco em diferentes tópicos. Isso até hoje existe, mas a verdadeira força dos fóruns esta realmente na sua capacidade de tornar específica a conversação e assim atrair um número bem seleto de internautas.
Talvez esse tenha sido o começo da crise. Mas o passo definitivo foi dado nessa década, com a explosão das comunidades de relacionamento.

É fácil entender como tantas páginas de relacionamento estão hoje por ai no ar. Tudo começa com os próprios sites de informação. Eu comentei muito isso no meu tópico sobre os navegadores aliás, só que sobre outro foco. A questão é que, em certo momento da evolução digital, os sites de conteúdo (seja ele qual for) começaram a perceber que dar poder ao leitor não era perigoso, e sim poderoso. Uma verdadeira chave para o sucesso. Então aqueles sites rígidos, sem customização e interatividade que conhecíamos começaram aos poucos a criar as suas formas de dar poder de escolha e, principalmente, voz a quem navega. Voz através da palavra escrita, dos comentários, e da capacidade desses comentários se inter-relacionarem com outros e com o próprio site.
Essa foi a chave da evolução que eu acho que poucas pessoas que navegam notaram. É um detalhe sutil, mas poderoso. E como na rede as coisas fermentam de maneira vertiginosa, não demorou muito para que os sites começassem a se tornar verdadeiras comunidades. A idéia do perfil é um derivado disso. Criar um perfil é a forma que o site tem para dizer “você é especial, você é único para nós”. Só você terá você na fotinho, terá o seu link pessoal, suas opiniões ditas e sua personalidade expressa. Você individualizado, mais junto com outros milhões de clientes especiais.
Enfim, deu pra se ter uma noção do que eu estou falando. O resto é história, e todo mundo conhece bem como funcionam os sites hoje em dia. A impossibilidade de criar um perfil ou coisa que o valha como maneira de dar voz ao membro já se torna um ponto de perda. Mas qual seria o próximo passo?

Abolir de vez os conteúdos rígidos. E entenda como rígidos aqueles que são ditados por uma pessoa, ou um grupo de pessoas. A dita “staff”, equipe, os criadores e administradores da idéia. Quando um site perde a sua matriz de conteúdo rígida, estoura-se de vez a bolha que tornava aquilo “um site” - e passamos a ter pura simplesmente uma “comunidade de relacionamento”, onde só oq existe são pessoas interagindo, sem uma linha mestra sendo dada por um grupo dominante de pessoas.
Deu pra entender do que estou falando? É óbvio que sempre existirão grupos gerindo empresas ou sites comuns. A diferença é o quão determinadas essas pessoas estão a tornar a experiência de navegação algo linear. Um site lhe da a informação, e lhe abre caminho para a opinião. Mas e quando a informação se dissipa, e tudo o que temos são opiniões misturadas (e que podem ser lidas em qualquer ordem)? Isso é um site de relacionamento.
Bem, mas aonde ficou o fórum no meio dessa história toda? É exatamente esse o ponto meu caro leitor. O fórum ficou no meio. Seu modelo claramente evoluiu em relação a oq eu disse, lá dos pré-históricos boletins, mas chegou num certo ponto de ápice, onde mudanças muito maiores começariam a descaracterizar o que conhecemos como fórum.
Isso pq a própria noção de sites de relacionamento como o Orkut, ou de fóruns tradicionais, como os que usam pacotes PHPbb é muito difusa. Seria o orkut um enorme fórum? Talvez, se encararmos ele como uma evolução dos fóruns. A grande diferença do Orkur porém é que ele cresceu tanto, mas tanto, que o próprio senso de comunidade se perdeu.
No fórum as pessoas eram amigas (ou pq não, inimigas?). Elas se conhecem com mais profundidade e calor, compartilham com mais detalhes e guardam com mais detalhes por se tratar de uma amostragem muito menor do que uma mega-comunidade como o Orkut. Não estou querendo dizer também que no Orkur só existem discussões de bosta (mesmo achando isso) - a qualidade das discussões pode ser a mesma, mas a quantidade de pessoas participando já fugiu de controle. E não há ninguém que possa dita-la justamente pelo princípio de que todos ali são iguais. São os tais “clientes únicos e especiais”
Para os fóruns restou aquilo que é mais intrínseco e específico. Num fórum não existe espaço para os anônimos, e as panelinhas são muito mais evidentes. Eu diria que o modelo do fórum ressalta aquilo que realmente somos, ou pelo menos aquilo que gostaríamos de parecer on-line.
Muito se fala dentro desse aspecto de que os sites, por essa evolução natural, começaram a roubar o espaço, e portanto os membros, dos fóruns. Eu não sei. Acho que tratam-se de gerações diferentes. As crianças e adolescentes de hoje em dia, que já nasceram no computador, talvez não estejam interessadas na proposta que o fórum acabou ganhando - de ser esse espaço muito mais evidente. Não é qualquer um que gosta de se expor de maneira mais impositiva, ou que simplesmente tenha argumento e opinião formada para debater idéias.
O que se sabe realmente é que os fóruns sofreram um esvaziamento, e a crise dita aqui é exclusivamente nesse sentido. Crise na verdade é uma palavra muito apocalíptica para o meu gosto. Como eu disse, duvido que o modelo esteja de fato em crise. É pq, na verdade, as pessoas já se acostumaram a ver números estratosféricos quando se trata da grande rede. Tudo é muito, é pra todos, e tem que ser o maior na internet. E esses adjetivos não são para os fóruns. Quer saber a verdade? Nunca foram.
Um bom fórum sempre foi aquele ativo, ponto. Nem que seja com um pequeno grupo de membros trocando idéias. É aquele que não se rendeu a gana de só ganhar números e às tentações das firulas de comunidade. Acho que ficou bem claro no final das contas minha preferência pessoal mas a verdade é que nunca gostei do Orkut. Pra falar a verdade, eu acho ele horrível como realmente oq ele pretende ser (uma comunidade). E eu sei pq não gosto dele, pelo motivo que eu já citei. Sites desse tipo lhe colocam em evidência com um número incontrolável de pessoas, e eu sou do tipo metódico que gosta de controlar com quem fala, que gosta de estabelecer relação com o interlocutor. No Orkut eu me sinto perdido e desorientado. No final das contas, nenhuma opinião que eu leio lá diz algo pra mim. Pois afinal, quem é aquela pessoa? Oq eu sei dela? Tenho pq infelizmente, como se sabe, quando não se tem Orkut vc simplesmente perde recados importantes - e é uma das formas mais eficazes de avisar aos seus contatos sobre algo.

Queria acabar deixando um forte abraço para todos aqueles que eu já tive o prazer de conhecer na minha caminhada por diferentes fóruns ao longo da vida digital. Com certeza aprendi um pouco em cada um deles e de muitos guardo pessoas especiais que um dia sonho em conhecer. Um abraço especial para Miriam e Bianca. Aliás se não fosse pela Bianca e pelo seu fórum do niji-neko, eu provavelmente não teria esse domínio hoje e não estaria aqui pondo minha cara a tapa. E um “X no coração” de toda a gang old school de miguxos que hoje habitam o Popnoid. Eu amo vocês

Infelizmente eu não vu ter minha câmera tão cedo, pois aconteceu um imprevisto. Quando eu ia comprar, o ultimo modelo tinha sido vendido, e eu fiquei tão apaixonado por aquela Canon que agora só quero ela. Esta difícil de encontrar outra, é um modelo recente (desse ano) que sai muito e muito rápido. Estou resistindo pra não comprar ela no preço normal, que é caro

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autor & obra

O nome é Diego e tem 21 anos. Nascido e criado no Rio de Janeiro, mas planeja se mudar para Niterói em breve. Não tem feito nada além de cursar o quarto período de Arquitetura & Urbanismo na UFF. Estuda japonês e pratica natação toda a semana. Nos tempos vagos treina fotografia e partidas de Poker. Indeciso, preguiçoso e de opiniões volúveis.
Não há muitas coisas que valham a pena serem ditas aqui sobre mim. Ou melhor, não há muita coisa que eu queira dizer. Costumo ser muito reservado, falo pouco e observo até demais – traços que definem bem minhas atitudes quase sempre anti-sociais. Por isso não é de se estranhar que eu tenha um blog, ele é minha válvula de escape para todas (ou quase todas) as coisas não ditas há muito tempo. Nesse aspecto blogar sempre teve muito sentido para mim, e desde a chegada desse tipo de serviço ao nosso país eu me retratei de diferentes formas. O popscene é meu primeiro e único host, e também minha investida mais duradoura, estando no ar agora a pouco mais de 2 anos.