episódio # 60 - foguenta

Eu lembro quando usei o Netscape, pois foi também uma das primeiras vezes que eu naveguei na internet. Deviam ser os idos de 1997, por ai. Era no laboratório do meu padrasto, e eu lembro que naquela época navegação ainda era uma coisa muito rudimentar. Nem pensar em ver vídeos ou baixar conteúdos, a coisa era básica mesmo. Acesso a correio eletrônico e sites de informações com design bem pouco arrojado.

Pois bem. Mal sabia eu que navegando inocentemente naquela época, eu entrava em uma guerra, a primeira virtual talvez. A guerra dos navegadores.
Vocês por acaso tinham computador caseiro no início dos anos 90? Bem, eu acho que posso me considerar felizardo por ter tido um. Naquela época o sistema operacional que etava abalando na pista era o MS-DOS. O que todos conheciam como Windows *puke* nada mais era do que uma interface gráfica alimentada por DOS, capaz de realizar tarefas simples de mono-processamento. Se hoje em dia se fala de múltiplos núcleos em processo, naquela época se falava em apenas conseguir realizar uma segunda tarefa simuntânea…
E a unica real memória que tenho desse tempo era jogar “Prince Of Persia” no floppy disk de 5¼, com gráficos toscamente quadriculados em tela totalmente verde limão. Obviamente eu não tinha acesso a conexão em casa, isso seria luxo exorbitante e dificilmente pratico para a época ainda. A conexão com o mundo era coisa dos grandes escritórios e laboratórios do mundo acadêmico, aonde o computador era necessário para coisas menos mundanas como escrever um texto ou jogar coisas pixeladas.

Como eu disse, lembro distintamente de estar sentado numa cadeira alta do laboratório do meu padrasto, explorando aquela coisa estranha que era a internet, com certeza sem saber oq estava fazendo. E me marcou muito aquele visual colorido do navegador, o Netscape. Exibir cores demais significava poder até então. Nessa época o Windows 95 já tinha sido lançado, e com ele uma mudança significativa ocorreu na computação caseira. A família 9x introduziu coisas que pra nós, usuários de Windows, hoje parecem ridículas como: barra de tarefas, menu iniciar e autoboot (não precisar pedir ao DOS para executar o Windows). Mas o avanço mais importante sem dúvida foi a expansão do suporte a rede, através de moden dial-up com protocolo TCP/IP. Foi com a chegada do Windows 95 que muita gente chegou a ter sua primeira conexão de rede em casa, as custas de telefones ocupados e contas mais gordas. E com essa importante inovação, um importante software para acompanhar: o Internet Explorer.

Antes do Internet Explorer, quem dominava o mercado da navegação era a Netscape, disparada. A Netscape surgiu como empresa justamente pelo seu navegador, que se tornou rapidamente popular pelo fato desse nicho ser algo obscuro e não explorado. Ninguém discorda que o Internet Explorer surgiu exatamente para frear esse crescimento e colocar disputa no mercado. Seu grande trunfo foi justamente o dito acima: estar incluso “gratuitamente” no pacote Windows, enquanto a licença individual do Netscape era paga (aspas pois, obviamente, o Windows em si nunca foi de graça ).
A Netscape ficou puta com isso e tentou colocar a Microsoft na justiça, alegando motivos duvidosos como táticas monopolistas. O jogo era claro: a Microsoft se aproveitou do status de hegemonia no mercado de S.O’s para incorporar ao seu produto um navegador próprio, afim de captar todos os seus usuários pela praticidade de uma ferramenta de navegação já estar ali, prontinha para uso. Cedo ou tarde qualquer empresa líder minimamente inteligente ia incorporar uma ferramenta de navegação em seu sistema, já que a rede mundial era um “negócio da china” que crescia a passos largos. E de fato a concorrência nesse mercado foi eliminada.

Não só nesse mercado na verdade. Se você parar pra pensar, durante muito tempo todos os softwares que usamos foram Microsoft quase que exclusivamente. Navegadores, player de audio, vídeo, editores de texto, planilhas, apresentações… com o passar do tempo isso foi gradativamente mudando. Na medida em que a internet foi se popularizando, mais e mais empresas foram surgindo nesse meio e criando força para oferecer produtos que integrassem nossos computadores.

O tempo foi passando e muitas empresas diferentes foram se estabelecendo com seus produtos e novos formatos. Mas um campo se manteve adormecido para a concorrência por um bom tempo. Justamente aquele que deu incio a toda essa conversa: o da navegação na rede.
Faz sentido. Se eu já tenho um navegador perfeitamente navegável em meu computador, para que eu vou procurar saber se existem outras opções? Pois bem, pelo mesmo motivo que fomentou qualquer outro tipo de mercado digital.
Vamos imaginar: hoje nos temos diferentes tipos de formato de vídeo pois a globalização clamou pelas diferentes necessidades do mercado de consumidores: alguns querem formatos mais leves como um .rmvb da Real Networks por exemplo. Outros querem codificação com máxima qualidade da Divx Inc. Ou no caso dos arquivos de audio: por que será que o formato .mp3 se popularizou tanto a ponto de ser referência para produção de objetos de consumo? Pela sua extrema capacidade de comprimir arquivos sem grande perda de qualidade. Tudo é uma questão de atender as diferentes necessidades que vão surgindo a medida em que o mundo avança digitalmente.

Na grande rede é óbvio que isso também aconteceu. Voltando lá para os idos de 1994, um grupo chamado W3C (World Wide Web Consortium) foi criado para desenvolver protocolos comuns de criação e interpretação de conteúdo na web. O objetivo principal é que um site desenvolvido em cima das diretrizes da W3C possa ser acessado por qualquer pessoa ou tecnologia independente de hardware ou software utilizado. Dessa forma fabricantes, desenvolvedores e projetistas podem ser orientados com o uso de práticas que possibilitem a criação de uma Web acessível a todos. Lindo não? É o mesmo se você quiser comparar na vida real, por exemplo, com a ISO (International Organization for Standardization). Mesmo sendo classificada como ONG, ela cria estudos padrões de qualidade internacional para os produtos manufaturados que muitas vezes acabam virando lei. Tudo para que possamos usufruir deles em comunidade sem grandes constrangimentos.

Por isso atualmente é de bom tom que qualquer pessoa que deseja jogar conteúdo na rede, siga os padrões W3C de maneira correta, tais como HTML, XML ou CSS.
Mas da mesma forme que cabe ao publicador seguir as normas, também cabe ao leitor das publicações interpretar essa série de códigos da maneira correta ou esperada. A grande verdade é que, com a democratização da rede, pessoas com grau de conhecimento em informática cada vez menor foram sendo liberadas a publicar conteúdo. Essa bolha estourou de vez com o “boom” dos blogs, a ponto de hoje, qualquer pessoa conectada poder estar publicando na rede com 2 ou 3 cliques.
Com essa falta de conhecimento das normas da W3C, o número de páginas na rede com montagem contraditória se multiplicou de maneira absurda. Na minha opinião, esse foi o primeiro nicho que as concorrentes em browser encontraram para explorar. Por quê? Por que com isso que eu disse, os navegadores agora precisavam se modernizar, se tornar mais flexíveis para contornar deficiências de leitura.
Poucas diferenças se notam nas versões do Explorer até a sua sexta. Ele sempre foi um navegador rígido naquilo que oferecia, opção pra voltar, avançar, copiar colar… ok, isso é o básico. Mas e se os navegadores oferecessem ainda mais? Se fosse possível através deles escolher como nós vamos ver conteúdos?

A rigidez das opções oferecidas pelo Explorer se aliaram a uma outra problemática que hoje gera discussões acaloradas: o seguimento aos citados web standards. Durante muito tempo a Microsoft manteve seu navegador desatualizado em relação a muitos conceitos da W3C, adotando parcialmente (ou até mesmo abolindo completamente de sua arquitetura) protocolos de conteúdo importantes. Isso vem gerando nos web designers uma frustração enorme, de ver suas criações, por mais que semanticamente corretas, cheias de erros de visualização no IE. E pronto, esse era o segundo baque que a concorrência esperava para dar o bote.
Para um navegador casual, mais velho e de ações restritas na rede, isso tudo pode parecer uma grande bobagem. Mas para os mais jovens, e principalmente para quem trabalha no ramo essas coisas fazem toda a diferença. E como eu disse, o mercado globalizado de necessidades só faz exacerbar ainda mais as deficiências.

Novamente, vamos viajar no tempo. Em 1998 a AOL compra a Netscape, e a essa altura do campeonato, sua antiga hegemonia já estava definitivamente abalada com a chegada do Windows 98. Quase admitindo derrota, a Netscape abre seu código e dá apoio ao trabalho de projetos paralelos como o da Fundação Mozilla, que serviriam para dar suporte ao desenvolvimento de futuras versões do navegador… numa tentativa digamos, de repaginar as coisas. O grupo Mozilla cria um suíte patrocinado pela Netscape, que viria a se tornar a primeira versão do Mozilla Web Browser. Essa tecnologia também seria usada como base da versão 6 em diante do Netscape, o que deu novos ares para o Netscape Navigator 7, em 2002. Porém entre essas versões, alguns membros do grupo Mozilla começaram a se sentir muito pressionados comercialmente pela Netscape para produzir algo que não consideravam bom ou funcional. Houve então uma ruptura, e dois membros (Dave Hyatt e Blake Ross) saíram como líderes de um novo projeto de navegação para substituir o Mozilla Browser, usando e aprimorando a tecnologia já desenvolvida. Essa seria a gênese do Firefox, que passaria por diferentes nomes até homenagear o Panda Vermelho dos Himalaias.
Este ano o Netscape Browser foi oficialmente descontinuado, deixando o Grupo Mozilla livre da influência de produção segundo os padrões dessa empresa, dando abertura para uma nova identidade comercial que viria a crescer cada vez mais nos últimos dois anos.

Como falávamos, a rigidez e falta de suporte aos web standards fez com que muitos usuários da rede se revoltassem com o Explorer, e com isso, passassem a procurar notícias sobre o que estava acontecendo além do mundo de navegação da Microsoft. O Firefox foi então ganhando gradativamente o espaço desse publico por oferecer coisas absolutamente impensadas até então. Mas o que são essas coisas?
Bem, a primeira e fundamental é a participação ativa do usuário na construção da identidade do produto. Essa é a chave que torna o Firefox cada vez mais querido. Não estou dizendo que os usuários ajudaram a criar o navegador através de opiniões ou “mimimi” que o valha, leia atentamente. Estou falando de identidade. A maioria dos usuários sente que faz parte do navegador através da personalização que ele oferece. Ele é altamente extensível de acordo com aquilo que você considera ser a melhor experiência de navegação, trazendo a tona finalmente a necessidade de individualizar, atender as diferentes necessidades do mercado global, que tanto estávamos falando. Isso é algo que a Microsoft nunca, nem de longe, tinha experimentado fazer.
Além disso, uma série de novidades contribuíram para deixar o negócio muito popular, como a inovadora navegação por abas, favoritos flexíveis e claro, a capacidade de estender visual e funções através dos complementos licenciados pela empresa (add-ons).
Mas um passo definitivo para o crescimento foi a parceria com a Google, aquela empresa que vai dominar o mundo lembra? Então, recentemente o líder de desenvolvimento do Grupo Mozilla foi admitido pela gigante da informação, gerando o famoso pacote “Firefox + Google Toolbar”.

Resultado? Até 2003 mais de 90% da navegação mundial correspondia ao Explorer. Hoje, pouco mais de 20% dessa fatia já corresponde ao Firefox. Uma campanha de marketing massiva tem envolvido este navegador, que passa desde o carismático mascote até o monstruoso “Download Day” da versão 3.0. que estabeleceu como campanha de marketing um número de downloads no mesmo dia capaz de levar o Firefox ao Guiness (meta alcançada com mais de 28 milhões de downloads num único dia).
Tudo esse sucesso somado começa a incomodar a Microsoft, que ainda esta longe de ter sua hegemonia em números absolutos quebrada. Mas o crescimento do Firefox tem se dado de maneira tão rápida que não é possível ignorá-lo. Prova disso é a versão mais recente do Explorer (7), toda montada em cima do sucesso de outros browsers como a adoção da navegação por abas e o leitor de feeds integrado. Roubar as idéias da concorrência aliás é algo que a Microsoft já mostrou ser profissional no passado. Um exemplo clássico é a incorporação do modo de conversação offline e várias outras funcionalidades do antigo dominante ICQ no Live Messenger, o programa de mensagens eletrônicas da Microsoft.

Se passaram mais de 10 anos da primeira guerra dos navegadores, e hoje nos deparamos com uma segunda, entre o antigo estreante e o legado da antiga dominante. Vamos assistir o desenrolar dessa batalha, que provavelmente só vai ser boa para nós, os consumidores, já que vamos sair lucrando com as competições que aprimoram cada vez mais a experiência de navegação na rede.
Não creio que tudo acabe com um ganhador, não. A situação hoje é bem diferente, e a rede tem sim espaço para mais de uma opção (tem espaço até demais). Seria muito difícil assistir ao fim do Firefox, pois além de ser gratuito, ele é compatível com qualquer S.O. do mercado. E isso vem de encontro com o crescimento de plataformas também gratuitas como Linux, que são cada vez mais adotadas em escritórios ou lugares que demandam grande quantidade de PC’s em rede, para baratear os custos gastos em licenças Windows. Da mesma forma seria muito difícil assistir a queda da Microsoft, por mais que eu deseje isso. Por tudo que ela representa no mercado digital, pela sua força… isso é praticamente impossível de se projetar atualmente.

Cabe mencionar honrosamente também o navegador Opera (Opera Software), que em alguns pontos eu confesso superar meu querido Firefox, como integração nativa de e-mail, IRC e torrent (coisas só alcançadas no Firefox através dos add-nos), comando de voz e opções de visualização (modo do autor, ajuste de largura e zoom). Mesmo assim ele ainda é o quarto no mercado, abocanhando uma porção ainda menor. Esta atrás do Safári, o nevagador exclusivo de quem possui um Machintosh ou usa drivers de derivados da Apple. No mercado de telefonia móvel o Opera tem uma inserção muito mais desenvolvida.

6 comentários

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    Alice Farias respondeu:
    October 9th, 2008 | citar
    Mozilla Firefox 3.0.3 - Windows XP

    noossa! não sabia nada disso! aqui em casa tudo começou com o Win 98, mas eu nem me ligava muito.
    bom post! ;)

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    :: Loma respondeu:
    September 18th, 2008 | citar
    Internet Explorer 7.0 - Windows XP

    Hi…

    Ótimo texto - adorei escreve bem… em minha vida PC e toda sua magnitude entrou em meados de 96 com o WDS 95… internet era para poucos - fui ter minha primeira visita a um site em 97 com a famosa discagem - na época com o provedor AOL (existe?)… lembro-me do incomodo que era em usar o tel e alguém querer ligar e o lance da linha estar ocupada - na época 12 anos…
    Sem dúvida a “guerra” é favorável a nós os consumidores.
    Explorer vem perdendo bastante para o Mozilla o qual tb sou adepta aos seus enormes recursos e complementos que facilita o dia-a-dia.
    Ficar de olho e absorver da melhor maneira possível a toda essa tecnologia

    Bjs

    :: Loma

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    Mariana respondeu:
    September 15th, 2008 | citar
    Opera 9.52 - Windows XP

    Vim puxar seu pé, pô!!!!!!! To com saudades!

    http://popnoid.com/board/portal.php

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    Igor respondeu:
    September 1st, 2008 | citar
    Mozilla Firefox 3.0.1 - Windows Vista

    nerd.

    adivinha quem tem um novo layout no Livejournal? \o/

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    Mariana respondeu:
    August 19th, 2008 | citar
    Opera 9.51 - Windows XP

    Nossa,que viagem no tempo! Isso me lembrou do longínquo ano de 1993, quando fiz um curso de “informática”. Sabia mexer mais ou menos no DOS e o Windows era um nada! Mas vamos ao que interessa… Bom, eu nunca usei o Netscape. Quando eu finalmente tive acesso regular à internet (lá pelos idos de 2002),o Netscape já estava mais do que obsoleto. O Firefox eu conheci no finzinho de 2004, e foi graças ao “Grande roubo de comunidades do orkut”. Nessa época, várias comunidades foram roubadas, e seu avatar era substituído pelo símbolo do Firefox. Fiquei com medinho porque era dona de comunidades grandes e acabei mudando de navegador na marra. Com o Opera foi diferente. Não foi ameaça. Eu simplesmente vi um navegador lindo, leve, rápido… E me apaixonei! 3 anos depois, ainda é o melhor navegador existente na minha opinião. E bate qualquer outro sem precisar de marketing agressivo ou ameaças.

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    Julia respondeu:
    August 13th, 2008 | citar
    Safari 525.21 - Mac OS X

    Cara, parabéns, tem que ter paciência rpa escrever posts “históricos” como esse! E sobre browsers, eu simpatizo muito com o Firefox, mas não dou sorte com ele. Quase todas as versões que eu testei se tornaram altamente instáveis no meu pc, travando toda vez que eu abria um pouquinho mais de abas, ou até mesmo com poucas. E é um problema meu mesmo, porque já instalei o navegador em diversos pcs de amigos, e tudo funciona perfeitamente.

    Por isso que mesmo sendo usuária de Windows, eu adotei o Safari. A primeira versão pra Windows tinha muitos problemas, mas agora raramente ele trava, mesmo com MUITAS abas aberta (e quando digo muias, é de 90 pra cima), carrega a página mais rápido do que o Firefox (pelo menos no meu pc) e tem um design legal. Mas realmente os add-ons do Firefox são maravilhosos e alguns sites só abrem no IE ou no Firefox, então ainda tenho esperanças de um dia poder usar o navegador da raposa.

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