episódio # 48 - dois Rios (em: especiais)
isso foi em 25.Apr.08 e 1 comentou
Finalmente achei tempo para ver duas exposições que já estavam me deixando com medo de ir embora. Bem, se não da pra ver todas que a gente quer, pelo menos duas já esta bom pra começar…
A primeira se chama Teatro de Debret. Teatro é só uma alegoria provavelmente criado por um curador metido a homossexual. Devo confessar que a iluminação e os panos no fundo da casa França-Brasil estavam dando um ar de teatro mas… ta, que coisa gay!
Enfim, trata-se de uma exposição histórica ao meu ver, e são raras a oportunidades de termos exposições assim com uma relevância e tamanho totalmente acessíveis (leia-se: de graça). Para quem não sabe (ou esqueceu, mas tem o nome como familiar) Debret foi o maior expoente da Missão Artística Francesa em nosso país, digamos assim. A Missão Artística a princípio foi encomendada pela Família Real à época de sua vinda para o Brasil. Não sei exatamente de quando ela é, mas fazendo contas rápidas certamente remonta as primeiras décadas do séc. XIX, pois comemoramos esse ano aqui no Rio os 200 anos da vinda da Família Real (1808). E os artistas da missão tinham como… hum… missão (
) funções diversas. Desde catalogar desenhos de plantas até retratar pinturas do cotidiano, realizar manuscritos relatados… enfim, esse tipo de coisa. O grupo fundou aqui no país a Academia Imperial das Belas Artes, que atualmente é o prédio da Escola de Belas Artes no Centro do Rio. Hoje lá funciona se eu não me engano alguns cursos de letras da UFRJ, pq a EBA em si fica na ilha universitária do Fundão.
Estavam reunidas ali na minha frente mais de 500 obras de Debret, sendo bem mais da metade somente suas famosas aquarelas. Haviam também duas ante-salas contendo as litografias do seu livro “Viagem Pitoresca ao Brasil” (ou algo do gênero), que ele montou após voltar a França e algumas pinturas a óleo que nem de longe contém o brilho dos seus traçados aquarelados.
Cara, eu fiquei embasbacado com a qualidade da técnica das aquarelas. Sério mesmo. No painel de apresentação da exposição havia uma frase dizendo que as aquarelas de Debret se situam em algum lugar entre o desenho e a pintura, mas mesmo assim conseguem carregar um senso de realismo tremendo. São todas como pequenas janelas do cotidiano de um país colonial, extremamente negro e paisagístico. Sério, eu acho que não tem uma pranchinha sequer que não tenha um escravo ou uma samambaia se esgueirando. O mais legal que eu acho no trabalho do Debret é essa qualidade simples de retratar exatamente a vida do dia-a-dia de uma colônia, e não o enfadonho da riqueza como vemos constantemente na pintura clássica européia, onde se pintava para as elites. É possível até imaginar aquele branquelo azedo que devia ser, com a maior pinta de gringo, sentado a beira de uma calçada desenhando o ordinário de um dia no Rio de Janeiro. Hoje sem dúvida esses documentos artísticos são fonte preciosa de estudo do Brasil colonial, exatamente por serem como “fotos” daquele período.
Foi muito bom, mas muito cansativo também. São muitos trabalhos pra se ver numa tacada só! No início eu estava todo me querendo, dedicando olhares atentos a cada traçado de cada papel… no final eu já estava passando quase que direto por certas paisagens
isso sem contar que a própria disposição das obras estava terrivelmente mal feita. Foi tudo colocado nuns balcões de vidro de um metro e meio, de modo que você tinha que ficar com o burro pro alto pra ver qualquer coisa. Minha coluna agradece!
Acho que fiquei meio bolado porque estou trabalhando com aquarela esse período na faculdade. Dava pra ver em praticamente todas as pranchas os traços a caneta por baixo, com certeza usando régua também… ninguém é tão perfeito assim. Mas o jeito que ele consegue criar luz e sombra, textura e profundidades somente sobrepondo as camadas tirou qualquer resquício de auto-confiança que eu tinha nas minhas futuras brigas com a tinta. Isso por que o meu trabalho já ficou um dos piores da sala 

Ok, moving on. Saindo ali da casa França-Brasil aproveitei pra entrar no Centro Cultural Banco do Brasil pra verificar se a exposição de fotos da família Ferrez ainda estava rolando. Fiquei com medo de ela ter ido embora com a chegada da exposição “Trópicos” (que aliás eu não vi – não deu tempo!), mas felizmente ela ainda estava lá

Estava muito interessado desde que vi o prospecto dessa exposição pelo simples fato de conter fotos do Rio antigo, mas sem nem ao menos saber quem era essa tal de família Ferrez eu sabia. Pois bem, no alto dos meus 20 anos ainda acho que não é tarde para aprender. O mais impressionante foi descobrir que o patriarca da família, Marc Ferrez, era filho de um escultor… integrante da Missão Artística Francesa
*morre* Definitivamente uma conexão trevas essa…Anyway… o que eu não sabia é que Marc Ferrez é um dos nomes mais importantes da fotografia do país. Seus primeiros trabalhos remontam a meados/final do século XIX, quando as câmaras escuras ainda estavam engatinhando. Era também sem dúvida uma família de posses. Nas legendas das fotos (do país e do mundo) haviam dizeres do tipo “casa da família em…”, sem contar que ele foi um dos idealizadores do Cine Pathé, tradicional prédio em estilo Art Déco da Cinelândia, outra coisa que eu também não sabia. Pelo que eu entendi a família detinha a maior parte da distribuição de películas de filme no Rio de Janeiro dessa época (início do séc XX).
O gosto pela fotografia contaminou as gerações seguintes, e dois de seus filhos deram continuidade aos projetos do pai por assim dizer. As fotografias também transmitem um ar aventureiro correndo no sangue da família. Nas fotografias em mata virgem ou montanha nota-se claramente que o ângulo é sempre exuberante e da aquele ar de “como é que alguém conseguiu tirar isso!”
A exposição foi possível graças a descoberta integral do acervo de Gilberto Ferrez, neto de Marc (que eu não sei se também fotografava), que deixou o legado de mais de 8.000 negativos de seus parentes. Legado este que foi doado recentemente pelas suas filhas (ou seriam netas? To começando a me enrolar com a cronologia
) ao Arquivo Nacional.A exposição começa com alguns objetos pessoais de Marc, máquinas, revistas, diários de viagem… num salão rodeado de fotos de viagens ao exterior. As fotos do Rio mesmo estavam concentrada no salão ao lado, e num terceiro as fotos do resto do Brasil e algo da própria família também. É muito interessante ver como era a cidade nesse início de séc. XX, como o território se re-configurou quase que completamente na nossa cidade, mesmo que já com a presença de alguns edifícios marcantes. Destaque para as seqüências de foto do desmonte do Morro do Castelo e da abertura da Presidente Vargas, que dão um panorama quase que completo da situação da cidade mediante a essas obras brutais de desapropriação e remodelação do tecido urbano.
Bem, eu acho interessante ok? Cada vez mais o lado do urbanismo me seduz
O nome é Diego e tem 21 anos. Nascido e criado no Rio de Janeiro, mas planeja se mudar para Niterói em breve. Não tem feito nada além de cursar o quarto período de Arquitetura & Urbanismo na