episódio # 39 - La Comédie Humaine (em: especiais)

isso foi em 21.Oct.07 e 3 comentaram

Acabei de ler “A Mulher de Trinta Anos”, leitura que interrompi ao comprar abruptamente “Recordações da Casa dos Mortos”. Lembro que no início estava achando tudo meio difícil. Não exatamente pelo vocabulário (ok, também por isso ), mas sim pelo fato de eu não estar conseguindo acompanhar bem a história. Levando em conta que estava lendo ele sempre no ônibus depois de acordar seria compreensível pensar que eu não estava ali 100% para aquela leitura. Mas na retomada eu percebi que mantinha o mesmo sentimento.

Alguns personagens se contradizem moralmente durante a narrativa, parecem não agir sob o mesmo senso de duas páginas atrás! Achei isso muito estranho, pois quando não entendo eu sempre volto eu re-leio. Nesse caso eu voltava, voltava… e não mudava nada. Continuava sem entender pq os personagens mudavam abruptamente de feição poética.
Resolvi pesquisar sobre. Talvez um filme que me fizesse entender melhor tudo isso. Navegando então descobri que o livro é, na verdade, a junção de vários contos independentes e escritos em separado que sofreram algumas modificações mínimas, como a troca dos nomes dos personagens, no esforço para constituir um romance único.
“Putz, que má sorte para se conhecer um autor” eu pensei. Acho que muitos, assim como eu, foram puxados para esse título pela curiosidade de conhecer a matriz do termo mulher balzaquiana. Falando assim parece que tudo foi em vão, mas eu sei que também não é bem assim. Tirando seus defeitos, “A Mulher de Trinta Anos” é uma leitura muito interessante pois exprime com franqueza as desilusões de um casamento fracassado, com a pespectiva da mulher em seu foco principal - uma mulher madura que é dona do seu futuro e que não tem medo de ser feliz, bonita e sensual após desventuras amorosas. Imagino que deva ter sido um escândalo, se pensarmos que foi feito para uma sociedade em que mulher casa menina e morre calada.

Porém, mais produtivo do que entender os motivos da minha “decepção” foi descobrir que “A mulher de Trinta Anos”, o livro que eu li, faz parte de uma enorme coleção literária intitulada “Comédia Humana”.
De fato o nome não me é estranho (e não, eu não estou confundindo com “A Divina Comédia” de Dante Alighieri ), mas eu não sabia que o livro que eu estava lendo era apenas um recorte dentre as mais de 90 publicações que compõem a série! Fiquei muito surpreso com isso, e animado em saber oq era exatamente essa Comédia.

Bem, A “Comédia Humana” de Balzac não é algo do tipo “Harry Potter”; uma história sendo seqüenciada em outros livros. Trata-se na verdade de um enorme painel da França no séc. XIX, sob todos os seus aspectos: sociais, culturais ou econômicos. Os mais de dois mil personagens das suas obras remontam a praticamente todos os setores possíveis daquela época: passando desde os abastados círculos familiares, até os mais baixos cortiços parisienses.
Essa atitude de mostrar a vida como ela era marcou na história uma quebra com a literatura elitista (habito pertencente somente a alguns nobres - estreitamente ligada ao Antigo Regime) e abriu caminho para a popularização da leitura, do livro e do ofício de escritor.

Essa ruptura inovadora marcou o início do romance moderno, que tem em Balzac com certeza um de seus pais. Você pode ler uma pequena amostra da sua trajetória de vida aqui, achei muito interessante esse envolvimento dele com um rendimento profissional sobre-humano, realmente pra criar um universo dessa largura não era para menos

Ciente de que podia redimir minha leitura com tantas outras, comprei na bienal mais um título de sua Comédia, intitulado “Esplendor e Miséria das Cortesãs”, compra aliás feita simplesmente a partir da trinca orelha+título+grossura Por enquanto esta bem legal, tem uma ambientação muito diferente do anterior, que trata da alta burguesia, e duma França iluminada e luxuosa. “Esplendor e Miséria das Cortesãs” já começa ambientado no mundo esfumaçado dos cafés e dos crimes, e instiga a relação entre a alta sociedade e um mundo nebuloso onde figuram mulheres das mais diversas inclinações.

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autor & obra

O nome é Diego e tem 21 anos. Nascido e criado no Rio de Janeiro, mas planeja se mudar para Niterói em breve. Não tem feito nada além de cursar o quarto período de Arquitetura & Urbanismo na UFF. Estuda japonês e pratica natação toda a semana. Nos tempos vagos treina fotografia e partidas de Poker. Indeciso, preguiçoso e de opiniões volúveis.
Não há muitas coisas que valham a pena serem ditas aqui sobre mim. Ou melhor, não há muita coisa que eu queira dizer. Costumo ser muito reservado, falo pouco e observo até demais – traços que definem bem minhas atitudes quase sempre anti-sociais. Por isso não é de se estranhar que eu tenha um blog, ele é minha válvula de escape para todas (ou quase todas) as coisas não ditas há muito tempo. Nesse aspecto blogar sempre teve muito sentido para mim, e desde a chegada desse tipo de serviço ao nosso país eu me retratei de diferentes formas. O popscene é meu primeiro e único host, e também minha investida mais duradoura, estando no ar agora a pouco mais de 2 anos.